
Conheces tu acaso a noite pavorosa
que com uivos do vento, tenebrosa
a terra envolve?...E o céu, turvo e profundo
que, como um negro véu, cobre a face do mundo?
Essa noite abismal- furna, onde o Medo mora?
Mas deita-te e descansa: há de nascer a aurora!...
Conheces tu a noite, essa noite pavorosa,
assassina da vida, hedionda e tenebrosa
Ela, o reino da Morte- alta potestade
- voz por onde esbraveja a voz da Eternidade?
Dorme, porém, tranqüilo e de alma descuidada,
porque a noite da Morte há de ser alvorada!...
Conheces tu a Noite atroz que invade a mente
e apaga a Consciência inexoravelmente?...
- venenosa serpente a enlaçar-nos a alma-
Oh! Levanta, e por sobre os teus ombros, chora,
Porque essa noite cruel nunca há de ter aurora.
Fala da personagem Schiller de Karl May.
Quando li esse poema tive a certeza de encontrar versada a triste tradução de todos os olhares, todas as falas desconexas, os gritos, os desenhos, as salas frias, todas as angústias, as condenações, todos os destinos de um hospital psiquiátrico.
O contato com essa noite que agride, culpa, paralisa, esfrega na cara a nossa impotência e miséria, nos incomoda também por nos mostrar o quanto estamos sujeitos ao apagar da luz .
Penso que a condição humana demasiada complexa, parte orgânica, parte mistério, me leva a essa constante inquietude diante da vida. Esse mistério que tanto me intriga, me incita a leituras, estudo, observação, releitura, re-estudo, re-observação e nunca me leva a conclusão satisfatória, me deixa apenas frágil “observadora-participante” da noite atroz.
Se nunca há de ter aurora, eu me pergunto, o que eu faço, arrogante com a minha lamparina de psicologia?...Por outro lado, sei que mesmo me afirmando como alteridade alguma parte estranha de mim se identificou com qualquer coisa naquela existência doente e percebi que, se cada um, na sua forma, disforme que seja, é fruto do mesmo substrato humano deve existir alguma luz em mim que por meio de um trabalho árduo e comprometido possa se fazer comum à ela para clarear ainda que apenas um passo, dentro da escura noite pavorosa.
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