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27 Jun 2009 
Noite pavorosa



Conheces tu acaso a noite pavorosa

que com uivos do vento, tenebrosa

a terra envolve?...E o céu, turvo e profundo

que, como um negro véu, cobre a face do mundo?

Essa noite abismal- furna, onde o Medo mora?

Mas deita-te e descansa: há de nascer a aurora!...

 

Conheces tu a noite, essa noite pavorosa,

assassina da vida, hedionda e tenebrosa

Ela, o reino da Morte- alta potestade

- voz por onde esbraveja a voz da Eternidade?

Dorme, porém, tranqüilo e de alma descuidada,

porque a noite da Morte há de ser alvorada!...

 

Conheces tu a Noite atroz que invade a mente

e apaga a Consciência inexoravelmente?...

- venenosa serpente a enlaçar-nos a alma-

Oh! Levanta, e por sobre os teus ombros, chora,

Porque essa noite cruel nunca há de ter aurora.

 

Fala da personagem Schiller de Karl May.

 


 

Quando li esse poema tive a certeza de encontrar versada a triste tradução de todos os olhares, todas as falas desconexas, os gritos, os desenhos, as salas frias, todas as angústias, as condenações, todos os destinos de um hospital psiquiátrico.

 O contato com essa noite que agride, culpa, paralisa, esfrega na cara a nossa impotência e miséria, nos incomoda também por nos mostrar o quanto estamos sujeitos ao apagar da luz .

Penso que a condição humana demasiada complexa, parte orgânica, parte mistério, me leva a essa constante inquietude diante da vida. Esse mistério que tanto me intriga, me incita a leituras, estudo, observação, releitura, re-estudo, re-observação e nunca me leva a conclusão satisfatória, me deixa apenas frágil “observadora-participante” da noite atroz.

Se nunca há de ter aurora, eu me pergunto, o que eu faço, arrogante com a minha lamparina de psicologia?...Por outro lado, sei que mesmo me afirmando como alteridade alguma parte estranha de mim se identificou com qualquer coisa naquela existência doente e percebi que, se cada um, na sua forma, disforme que seja, é fruto do mesmo substrato humano deve existir alguma luz em mim que por meio de um trabalho árduo e comprometido possa se fazer comum à ela para clarear ainda que apenas um passo, dentro da escura noite pavorosa.

Admin · 13 vistos · 1 comentário