Trânsito parado, fumaça de caminhão, horário pra cumprir, a gasolina no final, lembrei do meu saldo no banco esvaindo-se por fontes inesgotáveis de débitos e das contas para vencer.... Sentia cansaço, sono, uma fome! ...Parecia que há décadas não fazia uma refeição de verdade....Estressada, pensava nas pessoas com as quais tive que conviver nos últimos tempos, as que foram ríspidas comigo, ou que subestimaram a minha capacidade, as que exigiram providências fora do meu alcance, ou aquelas que se encontravam na mesma situação que a minha mas agiram como se não fôssemos iguais.... A imagem do homem que depois de oito anos na empresa, estava saindo para que eu entrasse me veio à mente...A cena das lágrimas rolando o rosto cheio e rosado me acompanhou em muitos momentos do dia.... O abraço que me deu desejando boas vindas não poderia ter sido mais desconfortável, foram longos segundos....O sinal fechou e um cara veio me pedir moedas, pensei: “De novo! Tô virando sócia! Vou fazer meu título do clube da esmola!”. Ajudei mais uma vez, não porque desejava, mas pra me livrar rápido da presença desagradável do mendigo...Tudo em mim era insatisfação.O final do dia parecia uma eternidade....
No caminho caótico de volta para casa, a tarde foi caindo e o céu se encheu de um laranja claro rajado de nuvens brancas sombreadas de lilás e quando meu olhar se perdeu no horizonte fui tomada por uma alegria calma. Ocorreu-me naquele instante a frase de um sábio catedrático que tive o prazer de conhecer “A vida tem a cor que a gente pinta”. Na mesma ocasião em que pude encontrá-lo passeando nos jardins de uma Universidade tinha ido ao campus para assistir a uma palestra sobre acupuntura, um tratamento alternativo que sempre me despertou a curiosidade.
Durante o evento descobriu-se que aquele profissional tão competente e sensível que nos falava era deficiente visual.O rapaz compartilhou conosco parte das dificuldades que enfrentou e das barreiras que precisou transpor para construir sua história de superação e depois do curso tive a oportunidade de conhecê-lo melhor e de desfrutar um delicioso almoço na companhia dele e de sua linda família. A lição que tirei daquela experiência nunca vou me esquecer. No pôr-do-sol ao final dessa difícil semana, me dei conta de que, embora eu possa ver a beleza de todas as cores muitas vezes escolho pintar a minha vida em tons sombrios, com cores mortas. Ele não pode enxergá-las, mas com certeza faz da vida dele um quadro multicolorido.
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